História e origem do violão como conhecemos

Um instrumento fácil de aprender, simples de tocar e incrivelmente versátil. Uma unanimidade entre músicos eruditos e populares. Mas não foi assim desde a origem do violão.

Perseguições ideológicas, dificuldades tecnológicas e mesmo a elitização da música participaram do contexto de origem do violão, há vários séculos.

Se está curioso para saber um pouco a respeito dos “ancestrais comuns” do nosso querido instrumento, viaje comigo para o passado. Lá, muitos temas interferem em seu formato e sonoridade, como é hoje.

Vamos juntos?

A Grécia de 2000 a.C.: os primórdios da origem do violão

Um povo apaixonado pelo pensamento e pela Arte, os gregos não poderiam ficar de fora de nossa viagem.

São reconhecidos mundialmente pelos avanços que conquistaram, revisitando a Filosofia egípcia. E, obviamente, junto à busca pela verdade, busca-se a beleza. E que há de mais belo que a música?

Foram eles os responsáveis por uma série de estudos, que geraram inúmeras teorias musicais. Elas ainda hoje facilitam o aprendizado e engrandecem as produções. Dentre tais vitórias, os modos gregos e os fundamentos da escala diatônica merecem destaque.

Mas precisamos nos lembrar que estamos falando de cerca de quatro mil anos atrás. Lá, não havia pianos, violões, violinos, instrumentos metálicos de sopro. Não havia como manipular aço para resultados tão sofisticados.

Contudo, onde não há facilidades, há inventividade e genialidade humanas. Cascas de animais, como tartarugas, recebiam cobertura de couro animal. Tripas estiradas assumiam o lugar das cordas. Eis o instrumento conhecido como chelys.

A título de curiosidade: os grandes Edu Lobo e Chico Buarque, em Choro Bandido, eternizaram estes versos:

“Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons”

Eles se referem a Apolo. Dentre outras atribuições, trata-se do deus grego das Artes. De forma especial, Poesia e Música, que sempre andam de mãos dadas.

Mas o que tem a ver liras e chelys?

A lira nasceu da modernização da chelys. Isso aconteceu graças à sua adoção por outros povos do mundo conhecido. Ela acompanhou récitas poéticas durante toda hegemonia helênica.

Apesar da similaridade física entre a lira e chelys, é uma das liras que a estátua de Apolo segura, em representações.

Com a expansão do Império Romano e o fim da hegemonia helênica, a lira ganha novo nome: guitarra romana.

O instrumento perdurará durante todo o tempo dos Césares. Mas, com a decadência de Roma, há de desaparecer por algum tempo.

Acontece que, sendo muito influentes, os gregos possuíam contato com praticamente toda a Europa, Médio Oriente e norte da África. E, lá, o que desmoronou junto à capital do Antigo Império continuou a existir.

Mais um passo na origem do violão: o nascimento do alaúde

Séculos mais tarde, quando a Europa já se esquecera da lira, nasceu o alaúde. Sua concepção aconteceu na Arábia, por volta do séc. XIII d.C.

Embora todos sejam importantes para a origem do violão, o alaúde apresenta muito mais semelhanças do que seus antepassados.

Tendo o corpo de ressonância em forma de pêra e já contando com braço e trastes, o alaúde invadiu a península ibérica. Mas não sozinho: ele foi trazido pelos árabes que dominaram a região. Para lembrar, Portugal e Espanha são os países existentes nela.

Como é de se esperar, o choque de culturas (e não o canal hehe) acabou inserindo o alaúde na vida europeia. Quando assumido pelos nativos — e cativos —, recebeu o nome de guitarra moura, ou guitarra mourisca.

Ao fim do domínio mouro, toda tradição remanescente sofreu preconceito e perseguição. Os humilhados desejavam esquecer sua derrota e apagar os vestígios que restavam.

Por isso, a guitarra mourisca foi banida, por ser inaceitável resquício da invasão. Mas sua necessidade cultural pediu modificações.

Estética e ergonomia foram repensadas, mudando a forma do instrumento, porém preservando sua materialidade. Nasce, então, a vihuela, com corpo em formato de oito.

Com quatro cordas e roseta, em vez de um único furo no tampo, a vihuela ganha popularidade na Europa medieval.

Os trovadores foram seus maiores adeptos, usando da sonoridade melancólica como fundo para suas recitações.

A origem, de fato, do violão

Cada luthier modificou a vihuela a seu modo. E isso é natural. Com a difusão do instrumento pela Europa, passamos a conhece-lo como guitarra latina.

Apenas entenda-se que “latino”, aqui, refere-se a Lácio, ao que fora, antes, o Império Romano. Não estamos falando de “latinos” da América Latina, tudo bem?

Portugal, que mais tarde colonizaria o Brasil, acabou caminhando para um lado distinto de outros povos. Seu trabalho resultou num instrumento de corpo maior, sonoridade mais grave e, consequentemente, mais cordas: eram cinco ou dez — em duplicidade.

Como esse instrumento era uma versão maior da vihuela, o nome foi bem simples de se dar. Amigos lusitanos, não se irritem: é apenas uma brincadeira carinhosa:

— Ora, pois… Se a tal viola é, assim, por demais pequena, e o instrumento nosso esse é maior, que dê-se a ele o nome que lhe cabe, pois: violão. Genial, ora pois!

Mas calma: ainda não é o fim da história

Acontece que esse “violão” português possuía cinco ou dez cordas, certo? Ele chegou aqui nas bolsas e mãos dos jesuítas, quando da colonização, no início do séc. XVI.

O Brasil, quando conheceu o “violão”, acabou apaixonando-se não por ele. Pelo menos não como o conhecemos, hoje. O que veio com os padres era a viola caipira, uma máquina nas mãos de gênios como Almir Sater, entre outros.

A viola caipira, com cinco cordas ou dez dobradas, possui afinação diferente. A questão não repousa, apenas, em menos cordas. São primos, viola caipira e violão, mas são distintos.

Disso às seis ou doze cordas

Não demorou muito, e novas alterações aconteceram. A sexta corda foi acrescentada, e a afinação, alterada. Com isso, as fôrmas dos acordes foram, também, alteradas.

Durante os anos seguintes, formou-se o padrão E-A-D-G-B-e, que utilizamos hoje como principal. Outros moldes nasceram, principalmente com o surgimento do dobro.

Tendo o “violãoão” e o “violão” galego, preferimos chamar de violão o que hoje conhecemos por esse nome. O antigo, maior aproveitado nos interiores e sertões, passou a chamar-se viola caipira. E, assim, a conhecemos, nestes dias.

Depois da origem do violão: os próximos passos

Com a consolidação do violão, no mundo, muito trabalho foi necessário. E não apenas intelectual. Foi preciso bastante esforço retórico.

Sendo um instrumento popular, a elitização nunca quis que o violão participasse do topo musical. Achava-se que o violão, na música erudita, seria uma profanação.

Por algum tempo, peças clássicas continuaram sendo executados nos alaúdes. Mas, por sorte em batalha, finalmente o violão adaptou-se às demandas da música clássica.

Hoje, pouca coisa é tão culturalmente rica e provoca tanto deleite quando um recital solo de violão erudito.

O mesmo vale para a profissionalização dos estilos populares antigos. O tango, a valsa e o flamenco são prova indiscutível da importância do simples violão, na Música.

Guitarra, Guitar, Guítare, Chitarra, Gitare… e Violão

Embora a origem do violão seja assunto mundial, a escolha do nome não é. Isso porque nomeamos as coisas com base em nosso idioma. E o recebemos de Portugal, apesar da influências indígena e africana.

No mundo todo, o violão é chamado de guitarra. Exatamente como foi no passado. Mas, nisso, saímos na frente. Veja só:

Se digo “violão”, você pensa em quê? Num violão, certo?

Se digo, a um gringo, “guitar”… estou me referindo a “eletric guitar” ou “acoustic guitar”? O mesmo para um hispano: “guitarra o guitarra eléctrica?”, ele perguntaria.

Quando, no séc. XX, Fender inventou a guitarra, não tivemos qualquer problema: é um violão sem ressonância. Chame-se “guitarra”, e pronto.

Porém, no resto do Ocidente, tiveram que adjetivar sua variação de guitarra. Esta, em questão, não era como a comum. Era elétrica.

Outros pontos de importância sobre a origem do violão

Basicamente, trouxe, aqui, um compêndio do que estima ser o processo de origem do violão. Não pretendo ser dogmático, muito menos dizer “foi assim e pronto”.

Saiba que muita coisa é vaga. Muita informação só chegou até nós por meio de figuras e desenhos sem grandes detalhes. A clareza não é nem nunca foi total, no assunto.

Contudo muito do dito refere-se à realidade, ainda que parcialmente. Se cometi algum erro, na exposição, perdoe-me e me ensine como foi o certo. A vida é um aprendizado infinito.

Se gostou da matéria, compartilhe com seus amigos e pessoas queridas. Nós produzimos material para seu proveito e deleite. Queremos que ame o violão, para que aprenda mais rápida e facilmente.

Caso tenha encontrado algum erro histórico indiscutível, no dito, comente. Será um prazer corrigir e engraçar o artigo.

E, por fim, se deseja matérias quentinhas e úteis, feitas com o coração, volte sempre aqui. Postamos com frequência tudo sobre curiosidades, técnicas e cursos bacanas.

Aguardo você, aqui, de volta com a gente, estudante de violão.

Até mais!

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About the Author: Mario Feitosa

Músico e compositor popular, o premiado escritor Mario Feitosa é especialista em tecnologia, poeta e redator. Baixista e violonista com décadas de experiência, seu compromisso é transformar a Música em matéria universal.

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