Campo Harmônico no Violão: (Completo) Não Dependa Mais de Cifras

Você já reparou que músicas diferentes muitas vezes possuem os mesmos acordes?

E alguma vez se perguntou como músicos experientes são capazes de tocar qualquer música “de ouvido”?

Se sim, essas e muitas outras perguntas estão a um passo de serem respondidas. Para isso, vamos juntos entender o que é e para que serve o campo harmônico no estudo musical e, claro, especialmente no aprendizado do violão.

Vamos lá?

O conceito de harmonia

Em primeiro lugar, o próprio termo já deixa o assunto mais fácil de entender.

Harmonia, ideia básica aqui, possui vários significados, mas sempre remete a consonância, ao “soar junto” de uma realidade, de modo belo e ordenado.

Na música, campo harmônico corresponde a uma sequência lógica dos acordes.

Com base no tom de uma melodia, ou seja, seu acorde principal, devemos esperar uma sequência preestabelecida dos demais acordes variando entre maiores e menores.

Parece muito complicado, mas nada melhor que um exemplo para esclarecer.

O campo harmônico maior de Dó

Como já sabemos, a escala maior de Dó desenvolve-se em Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si.

Essa sequência de notas é invariável. Porém, se a tocarmos apenas com acordes maiores no violão, o resultado será terrível.

Isso acontece porque, no campo harmônico, lidamos com acordes. Eles são mais complexos que notas isoladas, já que inicialmente formados por tríades.

Dessa forma, para reproduzirmos o campo harmônico de Dó maior, faremos da seguinte maneira:

  • A nota Dó da escala maior vira o acorde Dó maior (C), formado pelas notas , Mi e ;
  • A nota Ré da mesma escala vira o acorde Ré menor (Dm), formado pelas notas , e ;
  • A nota Mi converte-se no acorde Mi menor (Em), formado por Mi, Sol e Si;
  • A nota Fá vira o acorde Fá maior (F), formado pelas notas , e ;
  • A nota Sol vira o acorde Sol maior (G), formado por Sol, Si e ;
  • A nota Lá torna-se o acorde Lá menor (Am), formado por , e Mi;
  • A nota Si, por fim, torna-se o acorde Si menor com quinta diminuta (Bm(b5)), formado por Si, e .

Se você não entendeu o que são essas letras na frente do nome dos acordes,  aprenda como ler cifras clicando aqui.

Desse modo, temos os seguintes acordes para explorar numa música cujo tom seja Dó (C): C, Dm, Em, F, G, Am e Bm(b5). Belle de Jour, de Alceu Valença, é um excelente exemplo do uso deste campo harmônico.

Aplicando o campo harmônico maior dos demais tons

Analisando o desenvolvimento harmônico de Dó, podemos abstrair a seguinte regra. Temos:

1º grau Maior, 2º menor, 3º menor, 4º Maior, 5º Maior, 6º menor e 7º menor com quinta diminuta.

Agora, basta posicionarmos regra e tons numa tabela para desenvolvermos os campos correspondentes. Vamos juntos?

Tabela do Campo Harmônico Maior


Mas veja:
você não precisa decorar essa tabelinha, hein? Muito pelo contrário. Primeiro porque, com o tempo, ela se tornará natural para você.

E, em segundo lugar, porque vamos te explicar direitinho como descobrir qual nota fica em cada posição e por que ela deve ser maior ou menor.

Então continue acompanhando, concentrado como se fosse o Gavião Arqueiro.

Observação: Seus olhos podem ter sangrado ao ler Cb (Dó bemol) no campo harmônico de Gb. Mas é isso mesmo. Em música, não podemos ter B e Bb ao mesmo tempo na escala, por exemplo.

Isso ocorre para não atrapalhar os músicos quando a notação é em partitura. Se uma nota já apareceu, seu nome não pode se repetir.

Por isso, em casos como esse, que não haveria outro modo, temos a permissão para dizer Cb, B#, Fb e E#, afinal um Cb nada mais é do que um Si, não é?

Campo harmônico maior aplicado

Ninguém vive só de teoria, não é verdade? Justamente por isso, vamos juntos ver na prática o campo harmônico maior.

Lembra que, há pouco, eu comentei que “Belle de Jour” é um exemplo perfeito? Então vejamos:

C – Em (várias vezes) — Am – Em (4x) – F – G

É uma canção muito simples. Quase que não há variações. Apesar disso, é lindíssima pelo modo como o artista executa o dedilhado dos acordes.

No entanto, viu só como cada um dos acordes faz parte do campo harmônico maior de Dó? A grande questão é: nem todos os acordes possíveis foram utilizados.

E isso é normal. Apenas atente-se e compare-a com o campo harmônico:

Campo Harmônico de Dó Maior


Quando alguém compõe, a grande tarefa é conseguir algo bonito e inovador dentro de uma quantidade pequena de possibilidades.

Inclusive, muitas vezes a harmonia de duas músicas é igualzinha. A diferença fica por conta do ritmo, letra e da melodia vocal.

Confira um vídeo do canal RipTard no qual 22 músicas são tocadas usando os mesmos quatro acordes.

São eles: G, D, Em e C/G (Dó com baixo em Sol). Em menos palavras: o campo harmônico maior de G.

A matemática por trás de tudo

Quase nada na vida é por acaso. Na teoria musical, muito menos. Isso nos dá muita tranquilidade, afinal sabemos que basta estudar para descobrirmos o motivo de uma fórmula.

Contamos a você como é o campo harmônico maior de todos os tons. Mas isso não é o bastante.

Chegou o momento de descobrir como desenha-lo sozinho. E, por mais complexo que tenha parecido até agora, a realidade é bem diferente. Apenas continue prestando muita atenção.

A escala maior como régua do campo harmônico maior

Pouco fará sentido se você não tiver lido nosso guia definitivo de escalas. Juro! Será bem mais difícil compreender.

Porém, ainda assim, farei todo o esforço possível para que você entenda da melhor forma possível.

O mais importante é que você aprenda, não é mesmo? Então vamos:

O campo harmônico maior de Dó segue os mesmos intervalos da escala maior. A saber:

Tom – Tom – Semitom – Tom – Tom – Tom – Semitom

Justamente por isso, temos C, D, E, F, G, A e B. E repare: não há um único acidente. Como na escala maior de Dó, não temos nenhum sustenido ou bemol entre as notas fundamentais. Isso nos entrega que, quando falamos de um relativo maior da nota Dó, acidentes sequer existem. Esteja atento!

Todo acorde básico é formado por uma tríade, ou seja, a junção harmoniosa de três notas correspondentes ao , e 5º graus da escala.

No caso do acorde C, temos: C – E – G.

Nenhum acidente. , Mi e Sol são tons principais, não é mesmo? A escala maior está perfeitamente aplicada aqui.

Agora, por motivos de teste, vamos analisar o acorde de Ré maior:

  • corda D solta;
  • segunda casa da corda G: A;
  • terceira casa da B: D;
  • segunda casa da corda e: F#.

Temos D – A – F#:

Sustenido é acidente, meu caro. Existe algum acidente na escala maior de Dó? Não, verdade? E como tratar?

Ora, basta recuar esse acidente, atingindo uma nota que pertence à escala maior de Dó. Se voltamos meio tom, o F# vira F.

A grande questão repousa aqui: quando recuamos meio tom na terça de Ré, o acorde vira um Dm (Ré menor). Guarde isso!

Analisando os demais acordes no campo harmônico de Dó

Você já entendeu o segredo. Mas vamos, juntos, dar uma passada de olho pelos demais acordes. Isso ajudará a fixar a lógica e, claro, servirá como treino de teoria.

O caso de Mi

Assim como no caso de Ré, o acorde de Mi maior possui acidente. Olhe só:

  • E solta;
  • A na segunda casa: B;
  • D na segunda casa: E;
  • G na primeira casa: G#;
  • B solta;
  • e

Como já sabemos, acidentes não são bem vindos. Por isso, para corrigir, basta voltar um semitom no acidente. E, ao fazer isso, o que acontece? Ora, o acorde vira um Mi menor (Em).

A vez de F, G e A

Nos casos de F e G, a vida fica bem mais fácil. Nesses dois acordes, as notas da tríade são naturalmente adequadas à escala maior de Dó. Confira:

  • F: a tríade (1º, 3º e 5º graus) é composta por Fá – Lá – Dó;
  • G: a tríade é composta por Sol – Si – Ré;

Em A, por sua vez, temos o mesmo probleminha de D e E. Sua tríade é formada por Lá – Dó sustenido – Mi. Revertendo o acidente, temos o acorde de Am.

Si: o caso mais curioso de todos

Quando apontei a tabelinha do campo harmônico maior de Dó, você olhou bem para o acorde Si?

Além de ser menor por conta de um acidente no 3º grau, precisa ser menor com a quinta diminuta: Bm(b5).

Isso é necessário porque há outro acidente no 5º grau. Compare as tríades de B, Bm e você entenderá:

  • B: a tríade é composta por B, D# e F#;
  • Bm: a tríade é composta por B, D e F#.

Assim, precisamos também corrigir o segundo acidente. Fazendo isso, teremos a tríade B – D – F, ou seja, Bm(b5).

Corrigimos o primeiro acidente, gerando um acorde menor, mas também alteramos o 5º grau meio tom para trás. A formação desse acorde é essa:

  • segunda casa da corda A pressionada com o indicador: B;
  • terceira casa da corda D pressionada com o médio: F;
  • quarta casa da corda G pressionada com o mindinho: B;
  • terceira casa da corda B pressionada com o anelar: D.

Não se esqueça que as cordas Mi não devem ser tocadas, beleza?

Curiosidades sobre o sétimo grau do campo harmônico maior

Acordes diminutos no sétimo grau

Você encontrará por aí teóricos afirmando que o sétimo grau do campo harmônico maior de um acorde será um acorde diminuto. Mas será que isso é verdade? Vamos analisar para descobrir.

Quando desmonto o acorde B° (Si diminuto), tenho o seguinte resultado: B – D – F – G#.

Ora ora, não temos um G# ali no acorde? Já estamos carecas de saber que não cabem acidentes no campo harmônico maior de Dó.

Não estou certo? Então por que alguém sugeriria o B° como sétimo grau do campo harmônico? E vou te explicar:

Se olharmos para o B° unicamente do ponto de vista de tríades, estará tudo bem.

O problema é que não se trata de um acorde formado por ter graus, mas por quatro. B° é, na verdade, uma tétrade. “Tetra” significa “quatro” em grego, como tetracampeão.

Essa tétrade é formada por uma 3ª menor, uma 5ª diminuta e uma sétima diminuta. Essa sétima diminuta é justamente o G# ou Ab, um acidente.

Por isso, não está correto dizer que B° é o sétimo grau do campo harmônico maior de Dó. O melhor e mais certo é considerar o Bm(b5) por ser a tríade esperada, como mostramos antes.

Entendido?

Utilizando uma Tétrade no lugar de Bm(b5)

Outra diferença entre o que vimos e versões de outros teóricos é o uso de uma tétrade no sétimo grau.

Se falarmos de , essa vertente utilizará o Bm7(b5)Si menor com sétima e quinta diminuta.

Do ponto de vista da formação, não há qualquer problema, uma vez que a tétrade de Bm7(b) é B – D – F – A.

Todas são notas da escala maior de Dó e, portanto, podem estar num acorde do campo harmônico maior de Dó.

A grande diferença foi usar uma tétrade em vez de uma tríade, como em todos os outros graus.

Já do ponto de vista estético, um acorde com sétima soa como preparação e possui um som mais elaborado.

O ideal seria reservar essa opção para quando utilizarmos tétrades em outros graus também, como por exemplo, C7M. De todo modo, experimente. Se gostar da sonoridade, tudo joia.

Campo harmônico menor natural, menor harmônico e menor melódico

Como era de se esperar, o campo harmônico maior não é o único. Ainda que seja o mais utilizado e mais necessário de estudar, há outros.

A grande sacada é que não precisamos falar deles aqui, afinal a base teórica é idêntica à da construção do campo harmônico maior.

Você pegará a escala menor natural, harmônica ou melódica, considerará os intervalos característicos dessa escala e analisará as tríades.

É uma excelente lição de casa, não?

Agora que você já tem toda a teoria detalhadinha, vários exemplos e tabelas incríveis, basta colocar o filhote no colo e treinar, treinar e treinar.

Se ficou alguma dúvida ou se você quer colocar seu ponto de vista sobre algum dos assuntos que discutimos aqui, deixe seu comentário no campo abaixo.

Aqui, junto com a gente, seu sonho de ser um paladino do violão se realizará muito em breve.

Até a volta, querido aluno!

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