Como Ler Tablatura: Guia Completo

Todo mundo sempre começa a tocar violão apaixonado por uma música. E não raramente essa música possui algum solo ou arpejo na introdução.

Embora a deixem muito mais bonita, eles dificultam nossa vida quando estamos aprendendo a tocá-la, não é mesmo?

Tirar um solo de ouvido é tarefa complicada. Mas não precisamos sofrer tanto: basta encontrar uma boa tablatura.

Até o final deste guia, sem joia da mente ou qualquer outro artefato, você saberá como ler tablaturas e poderá tocar aquele solo que sempre quis.

Vem comigo!

A história da notação musical

Desde a Idade Média, os compositores passaram a registrar suas músicas em papel para garantir que alguém que nunca as tivesse ouvido pudesse cantar ou tocar.

Sem isso, não custa muito imaginar que boa parte dos clássicos que conhecemos teria se perdido na História.

A prática se iniciou há muito tempo, quando monges começaram a desenhar pequenos símbolos na linha acima das letras dos cânticos sacros para guia-los durante as orações.

Os símbolos mostravam se a melodia subia ou descia, basicamente.

Tempos mais tarde, os pequenos símbolos foram padronizados, e começaram a ser posicionados dentro de um esquema de quatro linhas, o Tetragrama.

Nele, os “neumas” — quadradinhos que simbolizavam as notas — eram posicionados. Ali já representavam a nota exata, duração e progresso da melodia.

É óbvio que não parou por aí: depois disso, os músicos passaram a usar as partituras com pentagrama, muito mais ricas e precisas.

Elas entregam, com riqueza de detalhes, a execução exata de uma peça ou música, instrumentos e voz.

Contudo, não são muitos os músicos que sabem ler partitura, não é? Muito menos os iniciantes.

O que é tablatura

Justamente por isso, em paralelo ao aperfeiçoamento da notação, um novo sistema de transcrição musical foi desenvolvido.

Nele, o braço de um instrumento de cordas é visualmente representado com traços e números.

Estes entregam ao leitor qual nota tocar, quando e de que modo. Estamos falando da nossa querida tablatura.

Quase tão antiga quanto as partituras, a tablatura tem seu charme: a simplicidade.

No lugar de um esquema complexo e de leitura difícil das notas, ela diz ao músico onde posicionar seus dedos. Simples assim.

É claro que, do século XIII até hoje, a tablatura evoluiu bastante.

Hoje, a utilizamos principalmente para violões, guitarras, baixos e, com algumas diferenças, para bateria.

Os gêneros musicais mais representados em tablaturas, recentemente, são o Rock, o Pop e as variações do Metal.

Há milhares de tablaturas disponíveis em sites como o Cifra Club e na plataforma Songsterr, que toca junto com você.

Como funcionam as tablaturas

A estrutura básica da tablatura consiste em seis linhas horizontais que simbolizam cada uma das cordas de um violão ou guitarra convencionais.

Junto às linhas, letras apontam qual afinação está sendo utilizada e a qual corda cada linha se refere.

Por exemplo, numa tablatura com a afinação padrão do violão teremos as letras E (Mi), A (Lá), D (Ré), G (Sol), B (Si) e E ou e (simbolizando ser a Mi mais fina, a “mizinha”).

Como dito antes, não aparecerá na tablatura qual nota deve ser tocada, mas em qual casa do instrumento ela está.

Isso facilita muito a vida de quem não aprendeu ainda a ler as notas do braço ou, pelo menos, ainda não decorou algumas.

Não é bem mais fácil assim?

Outra coisa que chama atenção nas tablaturas é a presença de símbolos os quais anunciam técnicas, como é o caso do “slide”, “hammer” e “tapping”, sobre os quais falaremos mais tarde.

Se quero dizer ao músico que dedilhe o acorde Ré (D), basta escrever nas linhas da tablatura do seguinte modo (contaremos de cima para baixo, OK?):

  • 0 na quarta linha: significa que a corda D deve ser tocada solta;
  • logo na sequência, número 2 na terceira linha: o músico deve tocar a corda G pressionando a segunda casa no braço do instrumento;
  • depois, número 3 na segunda linha: deve-se tocar a corda B na terceira casa;
  • finalmente, número 2 na primeira linha: o instrumentista tocará a corda com a segunda casa pressionada.

Conseguiu fazer a leitura mental dessa sequência? Não é mesmo o acorde D sendo dedilhado corda a corda?

Mas como eu sei que é para dedilhar e não todas as notas juntas?

É muito fácil: basta saber que, numa tablatura, eu só devo tocar as notas juntas se estiverem uma sobre a outra.

Se um número está antes do outro, deve ser tocado primeiro. Se estiver depois, deve ser tocado por último.

E a distância entre os números acusa se devo tocar com um espaço curto, muito curto ou longo.

Mas vamos deixar de lado a pura explicação e vejamos alguns exemplos. Nada melhor do que ver algo para entender, certo?

Acorde Ré (D) sendo dedilhado na tablatura simples­

Repare como todos os elementos apontados antes estarão presentes aqui numa tablatura simples, escrita num editor de texto padrão:

Acorde de Ré dedilhado em tablatura

De acordo com os conhecimentos que já possuímos, é necessário dedilhar o acorde D, tocando cada corda por vez e com tempo fixo.

O dedilhado deve descer do bordão até a “mizinha” e, na sequência, voltar de B para o D.

Note-se, também, que o 0 sempre significa corda solta, e que o número seguinte significa qual casa pressionar. Mais fácil do que parecia, não?

Porém vamos seguir com mais alguns exemplos.

Acorde Dó (C) sendo tocado inteiro de uma vez

Tablatura do Acorde de Dó

Nesse exemplo, a tablatura pede que o acorde C seja tocado com todas as notas ao mesmo tempo por quatro vezes. Há, claro, um intervalo que devo fazer entre uma repetição e outra.

Quem me diz isso é a distância entre os números e, também, o fato de todos estarem verticalmente alinhados.

A introdução de Come as you are, do Nirvana

Ainda que nem todo mundo goste de Nirvana, há poucas músicas melhores que Come as you are para exemplificar a notação simples de um solo. Vamos lá:

Tablatura da introdução de Come As You Are

Na tablatura acima, é possível aprender o clássico “solinho” de introdução. Vemos que, embora todas as cordas estejam simbolizadas, utilizaremos apenas duas: Mi e , as mais grossas.

Agora repare que a progressão na E respeita o mesmo tempo, mas, quando adicionamos a A, há um tempinho a mais.

Por meio dessa representação, sabemos que devemos esperar um bocadinho antes de soar a corda A solta.

Obviamente, nem toda notação em tablatura será muito clara quanto aos intervalos e pausas.

Mas, quanto mais gentil for o transcritor, mais transparente será sua escrita.

Poderíamos seguir com milhares de exemplos. Porém aproveitemos para avançar no tema conhecendo técnicas e efeitos, bem como sua apresentação nas linhas da salvação.

Bend: a mais bela das técnicas

Você já deve ter ouvido “Wasting Love”, do Iron Maiden. A canção é um símbolo do Heavy Metal dos anos 90.

Ela tornou-se tão importante graças a seu solo de introdução, no que a guitarra “canta” uma melodia. Se não conhece, assista a este vídeo aqui e confira.

Então eu te pergunto: reparou que a guitarra de solo soa quatro notas convencionais e, na quinta, a nota transforma-se em outra sem nova palhetada?

Você provavelmente teve a mesma sensação de quando ouve um solo de gaita. E faz todo sentido. Vou explicar:

O “bend”, como o próprio nome já diz, consiste em “dobrar” uma nota até que ela se transforme em outra.

No violão, quando fazemos um “bend”, apertamos a corda na casa inicial e, enquanto ela soa, esticamos a corda até que haja uma variação de tom.

Por exemplo:

Se toco a corda Si (B) na quinta casa (um Mi) e, com ajuda de outros dedos, empurro a corda pelo traste na direção da corda Ré (D), a frequência será “dobrada”, e o Mi virará um Fá, um Fá sustenido ou, até, um Sol — se a corda não estourar, é claro (se estiver com dificuldades em entender esse progresso, clique aqui para ler mais sobre notas e acidentes musicais).

Toda a beleza do “bend” repousa na transformação de uma nota em outra sem precisar bater novamente na corda. Nos faz lembrar de violinos e violoncelos.

Na tablatura, os “bends” são representados pela letra “b”. E atenção: não confunda nem com a nota Si (B) nem com o acidente bemol (também representado pelo “b”).

Como tablaturas não são lidam com notas, mas posições, nunca haverá um bemol na tablatura. Se há um “b”, ele quer dizer “bend” mesmo. Combinado?

Exemplos de “Bends” em tablaturas

Falei sobre a música do Iron, não foi? Então vamos ver o solo da introdução transcrito para entender o “bend”.

Se estiver com dificuldade em entender o conjunto, não tem problema: foque na letra “b”, certo? Mais tarde você relê a introdução da matéria e rapidinho entenderá:

bend na tablatura

Tenho certeza que você estranhou a “/”, o “h”, “v” e o “p”, mas é por pouco tempo. Preciso que você se concentre naquela combinação 10b12r10 na corda Si (B).

Encontrou, certo? Pois bem: ali há um “bend” (b) de um tom inteiro na casa 10, transformando o som daquele Lá em um Sol.

Ao final, o “r” indica que o “bend” precisa ser desfeito, retornando ao som original de Lá. Esse “r” significa “release bend” (“soltar a dobra”, em tradução livre).

Ao arrastarmos a corda pelo traste para provocar o “bend”, se queremos um “release bend”, basta devolver a corda ao lugar certo para o “r”. Viu que lindo e fácil?

Slide: elegante e certeiro

Assim como existe o “bend”, criado pela movimentação forçada da corda, temos o “slide”, nascido a partir do arrasto do dedo pela corda.

Sua vantagem em relação ao “bend” é a precisão. É fácil errar um “bend” enquanto é muito difícil não acertar um “slide”.

Traduzido livremente como “deslizar”, o “slide” consiste em tocar a corda sobre uma casa e, enquanto a corda vibra, arrastar o dedo para outra.

Nós o vimos, no exemplo anterior, representado pela barra “/”. Ali, sabemos que a sonoridade inicial, ao tocar a corda, é a terceira casa de Si e, quando ela está reverberando, devemos arrastar o dedo até a quinta casa: o Ré converte-se num Mi.

“Slides” podem ser curtos, de um tom para outro ou de um semitom até o próximo, ou mesmo longo, cobrindo boa parte do braço.

Na tablatura, você reconhecerá o “slide” pelo símbolo “/” ou pela letra “s”, e os números anunciam onde começo e termina.

Hammer-on e Pull-off: a graça na simplicidade

Ainda no exemplo lá de cima, da música da “Donzela de Ferro”, um “h” roubou sua atenção. Trata-se do “hammer-on”, a martelada de uma nota até a outra.

Quando uma nota mais grave torna-se uma nota mais aguda temos o “hammer-on”. Se for o inverso, ou seja, uma nova mais aguda tornando-se uma mais grave, então temos o “pull-off”, a regressão.

Diferentemente do “slide”, em que um único dedo corre de uma nota para outra, no “hammer-on” temos dois dedos.

No toque inicial da corda, um deles estará posicionado. Para aplicarmos o efeito, um segundo dedo baterá com força na próxima nota. O nome vem daí: o dedo vira um martelo.

Um “hammer-on”, assim como um “pull-off”, pode acontecer com intervalos grandes ou pequenos. A tablatura tratará de definir claramente como você deve agir.

Outros símbolos para técnicas e efeitos na tablatura

Há muitos outros efeitos, técnicas e símbolos para conhecermos. Focaremos nos mais importantes entre os que ficam:

  • “~” ou “v”: se encontrarmos o til ou a letra “v”, estamos falando do vibrato: “rebolar” o dedo para cima e para baixo, buscando que a nota oscile pouquinho, mas o suficiente para chamar a atenção. Lembra muito o efeito da alavanca de algumas guitarras;
  • “t”: o “tapping” consiste em marretar uma nota com a mão da palheta, a direita, fazendo-a soar. Você vai reconhecer a técnica se ouvir Van Halen. Em “Eruption” há “marteladas” das duas mãos sem nenhuma palhetada;
  • “x”: a letra “x”, quando numa tablatura, não quer dizer Xuxa não. Ela significa que a nota deve ser abafada, seja pressionando pouco a corda contra a casa, seja usando a lateral da mão direita próxima à ponte. “Enter Sandman”, do Metallica, será um excelente exemplo.

Como ler outros símbolos numa tablatura

Há ainda muitos outros símbolos nas tablaturas da vida, mas não serão padronizados.

Por isso, quando encontrar algo diferente, procure uma legenda de referência feita pelo transcritor.

Da mesma forma que mapas, tablaturas te contarão como entender cada coisa.

Sei que você terá muito trabalho pela frente. Você precisa ler esse matéria mais algumas vezes, mastigar e treinar bastante.

Por isso, vou te deixar estudando. Tudo que você precisa saber está aqui. Basta, agora, o empenho para dominar definitivamente essa linguagem.

Mas sabe o que mais eu preciso de você? Preciso que me conte se o guia foi ou não útil. Preciso que diga o que acredita ter ficado de fora.

Como foi dito no Tropa de Elite: “eu vou te ajudar. Aliás, eu quero te ajudar! Mas, agora, você tem que me ajudar a te ajudar”, beleza?

Por isso, conto com seu comentário e, claro, aconselho você a assinar nossa newsletter para receber materiais quentinhos, cheirosos, cheios de dicas e truques para transformar seu aprendizado de violão em uma deliciosa brincadeira.

Afinal, quando tratamos de forma séria, vamos do lvl 1 ao 100 num pulo, cheios de skills.

Abração, meu querido aprendiz, e volte sempre!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *